Desenrola 2.0 vem em boa hora, diz CEO do Santander, que teve queda no lucro

Banco aumentou provisionamento contra calotes de olho no alto endividamento das famílias; rentabilidade mensurada pelo ROAE recuou 1,5 ponto percentual, para 16%

Desenrola 2.0 vem em boa hora, diz CEO do Santander, que teve queda no lucro

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em um trimestre em que o banco viu a inadimplência aumentar, o CEO do Santander Brasil disse que o novo programa do governo voltado para reduzir o endividamento das famílias chega em um bom momento.

 

A instituição financeira divulgou nesta quarta-feira (29) que o lucro líquido gerencial do primeiro trimetsre de 2026 somou R$ 3,788 bilhões. O valor representa queda de 1,9% em relação ao resultado do mesmo trimestre de 2025 e ficou levemente abaixo do esperado pelo mercado -analistas consultados pela Bloomberg previam ganho de R$ 4 bilhões. Na comparação com o quarto trimestre de 2025, a queda é maior, de 7,3%.

"É um timing bom porque as famílias estão endividadas e a renda disponível não está evoluindo. O diagnóstico do governo está absolutamente correto, o nível de renda disponível está crítico. O programa é de fato necessário, está sendo bem desenhado junto aos bancos", disse o CEO Mario Leão sobre o Desenrola 2.0.

Para o executivo, a medida não é eleitoreira, apesar de provavelmente ser positiva ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e sim necessária dado o nível de endividamento.

Dados do Banco Central apontam que o endividamento das famílias brasileiras atingiu 49,9% em fevereiro e renovou o recorde histórico da série, iniciada em janeiro de 2005. O resultado de fevereiro se iguala ao pico observado há quase quatro anos, em julho de 2022.

"Apesar da inflação até pouco tempo estar caindo, apesar de a economia ainda estarcrescendo, de fato a renda disponível das famílias não tá evoluindo. E elas estão sobrealavancadas, sobreempregadas. Então, o diagnóstico do governo está absolutamente certo. E um programa como esse, bem desenhado como está sendo, ele é, sim, bastante relevante", afirmou Leão.

O CEO indicou que deve ser possível ver um efeito positivo do Desenrola 2.0 no balanço do banco já no segundo trimestre. O programa deve renegociar dívidas com atrasos a partir de 60 dias, o que deve aliviar o montante provisionado para perdas, além de aumentar a receita com as quitações.

A rentabilidade do banco mensurada pelo ROAE (Retorno sobre o Patrimônio Líquido Médio) recuou 1,5 ponto percentual em relação a 2025, indo a 16%.

Segundo o banco, entre os fatores que contribuíram para um resultado menor estão menos dias úteis e corridos, sensibilidade negativa aos juros e à variação cambial. Também pesou na queda trimestral uma maior provisão contra calotes.

Leão também atribuiu o resultado menor a um maior pagamento de impostos. "O resultado teve crescimento orgânico antes do imposto. Paguei bem mais imposto nesse trimestre que no último", disse a jornalistas.

O lucro antes de impostos somou R$ 4,583 bilhões, 5,4% maior que no fim de 2025. Porém, 3,5% menor que há 12 meses.

A carteira de crédito somou R$ 705,6 bilhões ao fim de março, recuo de 0,4% no trimestre, mas crescimento de 3,4% no ano. A maior parte do portfólio é de pessoas físicas e grandes empresas.

Em 12 meses, cresceram as concessões ao financiamento ao consumo (14,2%). Para pessoa física o destaque foi o crédito imobiliário (10,6%) e cartões (9,1%).

A inadimplência, por sua vez, subiu 0,2 ponto percentual no trimestre e 0,6 ponto percentual no ano, com os atrasos acima de 90 dias indo a 3,3% da carteira.

Em termos segmentados, o maior índice de atraso é de pessoas físicas, atingindo 4,9% do crédito. Já em pessoas jurídicas ele é de 1,8%. Neste último segmento, apenas 0,2% do crédito a grandes empresas está inadimplênte, enquanto em PMEs o índice é de 6%.

Segundo Leão, o banco segue priorizando crédtos menos arriscados e evitando clientes de baixa renda, com até dois salários mínimos e sem carteira de trabalho.

"Não estamos saindo da baixa renda, fazemos redução técnica, cirúrgica, em segmentos da baixa renda em que o Santander não consegue rentabilidade, nos não CLT", disse o executivo.

A PDD (provisão contra devedores duvidosos), ou seja, a proteção contra calotes, cresceu 3,9% no trimestre, mas teve queda de 0,7% no ano, totalizando R$ 6,344 bilhões no primeiro trimestre de 2026.

"Na comparação trimestral a PDD mantém-se pressionada pelo cenário macroeconômico e alto endividamento das famílias; já na comparação anual a queda reflete a ativa gestão de riscos e os efeitos de mix do portfólio", diz o balanço do banco.

A margem financeira, por sua vez, somou R$ 16 bilhões no período, crescimento trimestral de 3,1%, mas recuo anual de 0,7%.

O Santander Brasil é o primeiro banco brasileiro a reportar os números do primeiro trimestre de 2026. Na próxima semana Itaú Unibanco e Bradesco divulgarão seus balanços.

O braço brasileiro do conglomerado espanhol está em meio a uma troca de comando. Em julho deste ano, o atual CEO Mario Leão deixará a presidência em definitivo, que ficará sob a liderança de Gilson Finkelsztain, atual presidente da B3.

"Gilson é um amigo, alguém que conheço bem, fico feliz que seja ele que vai levar o banco adiante", afirma Leão.

O executivo trabalha no Santander há onze anos, sendo cinco como presidente. Antes de ser CEO, foi vice-presidente e diretor dos segmentos corporate (grandes empresas) e investment banking (banco de investimento). Anteriormente, teve cargos de liderança no Morgan Stanley, Goldman Sachs e Citi.

"Recebi um banco espetacular e tive que trabalhar nesses cinco anos para ele crescer de uma forma diferente. E estou bem contente de fazer isso. Este ano vamos ter lucro anual maior que 2021. O ROAE não, isso teremos que esperar até 2028", afirmou o executivo.

Em sua gestão, que sucedeu Sergio Rial, Leão focou a retomada de rentabildiade do banco, que caiu com a alta inadimplência ao fim da pandemia. Para isso, o Santander passou a priorizar clientes de maior renda e menos risco.

O ativo do banco subiu, mas a inadimplência do banco ainda segue acima do índice visto na gestão anterior. O ROAE também segue abaixo. Em 2021, era 21,2%.

"Superar o ROAE de 20% é totalmente factível em 2028", disse Leão.

Em fevereiro, o Santander anunciou outra mudança, a transferência de sua sede corporativa para um novo prédio na região do Itaim Bibi, zona sul de São Paulo. De acordo com o banco, a nova unidade vai abrigar suas operações a partir do segundo semestre de 2028.

Segundo Leão, o rearranjo envolve outras duas sedes do banco, uma em Santo Amaro e outra perto do Autódromo, o que deve resultar em queda nos gastos recorrentes, além de ser um investimento em uma área nobre da capital paulista. A ideia do executivo é ter lajes maiores com escritórios integrados, de modo a reunir as equipes do banco.

RAIO-X SANTANDER BRASIL | 1º TRI DE 2026

Lucro líquido: R$ 3,8 bilhões

ROAE: 16%

Funcionários: 49.107

Agências: 868

Clientes: 75,2 milhões

Fundação: em atividade no mercado local desde 1982

Principais concorrentes: Itaú Unibanco, Bradesco, Banco do Brasil, Caixa, Nubank

Leia Também: Fila do INSS cai para 2,6 milhões após atingir pico de 3,1 mi e levar à demissão de presidente